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Instituto Favela da Paz promove práticas sustentáveis em periferia de São Paulo

Texto: Esmeralda Angelica

Fotos: Raphael Poesia/Instituto Favela da Paz

Em uma viagem internacional, o músico e ativista Claudio Miranda Moura, 44 anos, conheceu a ecovila Tamera, em Portugal, onde teve contato com as  tecnologias renováveis e limpas. A vontade de levar a novidade para sua comunidade no Jardim Nakamura, Zona Sul de São Paulo, crescia a cada novo aprendizado. “Eu vi aquilo e questionei: porque essas coisas não estão na minha quebrada?”. Então, ele se uniu ao seu irmão, Fábio Miranda, e alguns amigos e, juntos, criaram o Instituto Favela da Paz – o nome é um contraponto à violência vivida na região; o Jardim Ângela (que compreende o Jd. Nakamura) já foi considerado o bairro mais perigoso do mundo pela ONU, em 1996.

O grupo musical “Poesia Samba Soul”, do qual Cláudio e Fábio fazem parte desde 1989, já trabalhava a sustentabilidade criando instrumentos com material reciclado, como baldes e metais. Com o nascimento do instituto, em 2010, o desenvolvimento ecológico se espalhou pela periferia em que vivem, mostrando aos moradores que é possível ter uma vida com práticas ligadas ao baixo impacto de lixo no meio ambiente.

O projeto é mantido através de vaquinhas online e da força de vontade dos envolvidos. A primeira iniciativa implementada foi o sistema de biogás, inspirado na ecovila de Portugal, mas que, por algum motivo, não funcionava por lá. “Meu irmão Fabinho fez testes, adaptações, criou novas válvulas e conseguiu fazer com que o primeiro sistema de biogás funcionasse aqui. O sistema foi levado para outros lugares do Brasil, como as populações amazônicas e ribeirinhas, onde esse tipo de tecnologia era uma necessidade”, conta Claudinho, em entrevista à Cause.

Os irmãos Cláudio e Fábio Miranda, criadores do Instituto

Dali em diante, as ideias foram criando forma e deram origem ao “Periferia Sustentável”, processo multidisciplinar de baixo custo para o desenvolvimento de tecnologias sustentáveis, como o próprio biogás, o uso energia solar, o cultivo de uma horta vertical e a “Cozinha Vegearte”, comandada pela cozinheira Elem Coelho, que ensina a culinária vegetariana, incentivando uma alimentação saudável e nutritiva, baseada em legumes, frutas e vegetais. O Instituto tem ainda outras atividades envolvendo música, arte, tecnologia, arduíno, empreendedorismo e audiovisual. Todos os cursos e oficinas atendem a um público diverso, formado por crianças, jovens, adultos e idosos. 

Durante a pandemia, foi criado o “Favela Card”, um tipo de vale-refeição que pode ser usado pelos moradores nos comércios da região, mantendo-os seguros e também fortalecendo os pequenos negócios.

Claudio conta que, para estimular novas habilidades entre os moradores, a ideia precisa funcionar dentro do instituto. “É importante que funcione pra gente primeiro, esse impacto precisa acontecer entre nós, para ser passado com segurança e garantia de transformação na comunidade. O Instituto é um guarda-chuva de projetos. Ele é conectado não apenas aqui na Zona Sul, mas com uma rede de outras iniciativas do mundo todo”, explica.

Ainda não existem dados que indiquem exatamente quantas famílias já foram impactadas pelo Favela da Paz. No entanto, uma pesquisa realizada pela Unip (Universidade Paulista), em 2017, apontou que o instituto reverbera na vida de cerca de 20 mil pessoas anualmente, através de sua atuação, não se limitando à sua comunidade, mas chegando também em visitantes de outros estados e países.