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Neon Cunha: “Falamos muito sobre inclusão, mas o que queremos é um lugar de pertencimento”

 

Foto: João Bertholoni

Texto: Esmeralda Angélica

“Falamos muito sobre inclusão, mas o que queremos é um lugar de pertencimento, e esse lugar é inquestionável”, diz Neon Cunha, mulher negra, ameríndia e transgênera, cuja luta pela existência começou cedo quando, aos 2 anos de idade, se identificou como menina.

“Eu me percebi no gênero muito antes das pessoas me classificarem na condição do gênero. Muito cedo, desde criança, eu percebi que aquela condição daquela mulher menos humanizada, era um processo de ameaça à minha existência, o que fazer com aquilo? O que fazer pra sobreviver?”

Natural de Belo Horizonte, Neon dos Afonsos Cunha foi para São Bernardo do Campo ainda pequena com sua família. Ativista independente, pensadora e diretora criativa, ela é uma existência múltipla, que carrega em si as possibilidades de vida da comunidade LGBTQIA+ — afinal, a publicitária completou 51 anos de idade em janeiro deste ano, contrariando as estatísticas sobre a expectativa de vidas das mulheres trans no Brasil, que é de aproximadamente 35 anos, segundo dados da ANTRA (Associação Nacional de Travestis e Transexuais).

“Eu estou nesse processo de entender e perceber isso [chegar aos 50]. Para chegar nesse lugar eu tive que negar afetividade, tive que negar os ideais, os sonhos, minha formação, uma série de coisas que eu fiz não importava pra nada. Vivemos em uma sociedade que está muito mais promovendo os medos do que o direito a sonhar. Então já que os meus sonhos foram bem corrompidos, eu só quero garantir que essas jovens possam sonhar muito mais”, diz a pensadora.

Identidade ou morte

A permissão para ser quem é sempre foi uma de suas maiores determinações, a começar pela identidade: em 2016, Neon entrou com um pedido de retificação de nome e, à época, era necessário um diagnóstico de Disforia de Gênero, uma patologia para determinar que a pessoa não se reconhece no gênero que nasceu. “Eu levei para os autos do processo que não tinha disforia de gênero, disse que eu me recusaria a qualquer laudo, foi a primeira vez que isso acontecia”, relembra.

Caso seu pedido não fosse aceito, Neon optaria pela morte assistida – decisão essa que mudou o trajeto desse tipo de processo para outras mulheres trans, pois  a conquista abriu precedente para que tal dignidade fosse partilhada.

Mercado de trabalho

Ainda segundo dados levantados pela ANTRA, o trabalho formal para a comunidade trans e travesti não é uma realidade: estima-se que 90% da população trans no Brasil tem a prostituição como fonte de renda e única possibilidade de subsistência. Neon conhece de perto essa realidade, pois ainda jovem já foi olheira de cafetina. No entanto, subverteu essa lógica ao se tornar funcionária pública.

“Eu nunca cheguei nesse lugar de dizer que fui contratada pelo que me formei, eu fui contratada pela mulher que eu me tornei, isso a gente pode dizer. Foi uma dificuldade me formar, estar em um colégio onde as pessoas tinham uma ideia de status sociais pelo imagético. Eu tenho um único registro na carteira, que faz agora 33 anos”, conta.

“Se permitam sonhar”: o que Neon deseja para jovens LGBTQIA+

Diante de uma trajetória de muita luta, Neon olha adiante e expressa um desejo para jovens LGBTQIA+ de hoje: “Que elas possam sonhar. Ampliar bastante esse olhar do discurso da liberdade, de ser quem se é, de existência, mas na perspectiva do sonhar mesmo: O que você quer da vida? O que o Estado pode fazer para garantir sua saúde integral nesse processo? Quando chega nessas pessoas, qual é o direito de sonhar? Como se constitui isso? Temos que falar de utopia, e a utopia é necessária para que as pessoas tenham esse direito de concretizar seus sonhos”.

Nota: A trajetória de Neon culminou na criação de uma ONG – a Casa Neon Cunha, que funciona como centro de cidadania e acolhimento para a população LGBTQIA+, em São Bernardo do Campo (SP).