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ESG: qual é o papel social das organizações no “mercado sustentável”?

Por Renata Barbosa*, Diretora de Estratégia da Cause 

Não é de hoje que o papel social das empresas tem sido questionado. Nas décadas de 1960 e 1970, quando o mundo vivia momentos de grandes tensões como a Guerra do Vietnã e o Apartheid, essas reflexões começaram a ganhar corpo, mas o economista norte-americano Milton Friedman logo direcionou a conversa com uma afirmação que até pouco tempo foi tida como a regra do jogo: segundo ele, a responsabilidade social dos negócios era aumentar os lucros, e isso bastava. 

De lá pra cá, a sustentabilidade e os pensamentos em torno do desenvolvimento sustentável evoluíram, mas se fizeram presentes de forma tímida, especialmente junto aos investidores — que ditam o mercado tanto no que ele hoje é, como no que ele pode vir a ser.

Em 2004, o UNEP FI (United Nations Environment Programme Finance Initiative — parceria global estabelecida entre o Programa ambiental das Nações Unidas e o setor financeiro logo após a ECO-92) cunhou o termo ESG (Environmental, Social and Governance — algo como melhores práticas ambientais, sociais e de governança). Logo em seguida, a ONU criou o PRI (Principles for Responsible Investments – Princípios para Investimentos Responsáveis), iniciativa global que hoje conta com mais de 7 mil signatários em 135 países, direcionando o desenvolvimento de uma nova agenda para o mercado de investimentos. Sim, o interesse pelo assunto é crescente e hoje está na crista da onda por aqui.

Mas o que de fato isso significa? Se o mercado ainda é pautado pela capacidade de retorno financeiro, o que significa um investimento ESG? E por que o papel das empresas, e principalmente dos investidores, tem se mostrado cada vez mais relevante para as mudanças que precisamos ver no mundo?

A visão ESG é a capacidade de uma organização de encarar a responsabilidade de seus impactos nas esferas ambiental, social e de governança. É a inserção da sustentabilidade na tomada de decisão de negócios, como forma de beneficiar não só a sociedade e a natureza, das quais também somos parte, mas  — sobretudo — de viabilizar os melhores retornos financeiros.

Uma teoria relativamente simples, que demanda uma mudança de comportamento reconhecidamente necessária diante de um contexto de urgências, mas que ainda apresenta muitos impasses para se desdobrar em ações concretas.

No mundo, mercados como Europa, Japão, Canadá e Austrália têm o tema na pauta há mais de duas décadas, e sua maturidade já pode ser sentida na tomada de decisão de investidores, como a reação imediata que vimos recentemente em relação ao aumento expressivo do índice de desmatamento na Amazônia: oito países europeus enviaram uma carta ao vice-presidente Mourão. No documento emitido em setembro de 2020, os signatários afirmam que “na Europa, há um interesse legítimo no sentido de que os produtos e alimentos sejam produzidos de forma justa, ambientalmente adequada e sustentável” e por isso os números do desmatamento na floresta amazônica estariam preocupando “consumidores, empresas, investidores e a sociedade civil”. São ações como essa que buscam efetivar um impacto positivo relacionado a determinado tema, direcionando as mudanças para a sociedade.

Nos EUA, a evolução do ESG se deu por outro caminho, estruturado por meio de uma atuação de Fundações, Family Offices e Endowments (Escritórios de Gestão de Patrimônios Familiares e Fundos Patrimoniais), que hoje resultam em uma vis0ão também mais estruturada sobre o tema por lá.

Por aqui, o que vemos é o início dessa trajetória, com o mercado ainda no nível básico no que se refere à construção de uma visão ESG. Diferentemente de outros países, no Brasil, o tema tem sido puxado pelo terceiro setor, a partir de um olhar mais para o retorno social do que o financeiro. Existem poucas alianças de investidores e fundos de pensão e ainda não temos uma coalizão no ecossistema (que inclui setor público, setor privado, terceiro setor, academia, a mídia e — por que não — os próprios cidadãos) capaz de oferecer uma base sólida para seu desenvolvimento no país. 

Mas por que esse tema entrou na pauta e tomou essas proporções recentemente? 

O “mercado sustentável” no mundo é crescente e significativo, somando hoje mais de US$30 trilhões em ativos, gerenciados por fundos que definiram estratégias sustentáveis, representando 36% dos ativos financeiros totais sob gestão. Um aumento de 34% em relação à 2016, de acordo com a Global Sustainable Investment Alliance (Aliança Global de Investimento Sustentável). 

No Brasil, não há números exatos sobre o investimento ESG e nem sobre o nível de engajamento das empresas. Segundo dados da ANBIMA (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais), temos R$ 543,4 milhões aplicados em fundos de ações sustentáveis (crescimento de 29% em relação a junho de 2019), o que representa 12% do patrimônio dos fundos de ações e 1% da indústria de fundos de investimentos. Apesar de não termos os dados precisos, já é possível perceber o mercado se movimentando para aumentar de forma expressiva esses valores. 

Nesse contexto, a pandemia surgiu como uma grande lupa, revelando o que há muito se sabe, mas há pouco se quis ver: não há negócio possível diante das mudanças climáticas e de tamanha desigualdade social. E o encaminhamento (para não dizer resolução) dessas questões é urgente e passa por um olhar ESG. Não temos mais tempo para pensar, discutir, formatar. É preciso agir, não só para garantir nosso futuro no planeta, mas porque tudo isso afeta diretamente os resultados das empresas. 

Vivemos um mundo em uma velocidade de transformação jamais antes experimentados. E é nesse lugar que a reputação das organizações é colocada à prova, e sua responsabilidade social ganha outro corpo e outra função. É papel das organizações dar conta de seus impactos socioambientais, inclusive buscando compensar com impactos positivos seu histórico de atuação, regenerando o que já foi consumido e deteriorado. É urgente que as organizações atuem ativamente na resolução de demandas sociais, mesmo aquelas não provocadas diretamente por seus modelos de negócio, pois não há negócio saudável em uma sociedade doente. As organizações devem ajudar a construir um novo modelo de sociedade, com benefícios para o coletivo. E isso os números provam que esses negócios são os que oferecem melhores retornos financeiros, especialmente no longo prazo.

Apesar da clareza do caminho, endereçado inclusive em acordos e compromissos globais públicos, com metas claras como a Agenda 2030 e o Acordo de Paris, o desafio é imenso, pois para além de uma mudança de atitude, estamos falando de uma mudança de olhar, de entendimento, de valor social das instituições. Um valor que, diferente dos indicadores financeiros, é pouco tangível e comparável, principalmente se considerarmos os diversos setores, contextos e estágios de desenvolvimento de empresas ou de políticas públicas.

Esse é o início de um processo que cresce e seguirá crescendo a passos largos por aqui. É nosso papel acompanhar, provocar e fomentar sua consolidação em nosso país, apoiando instituições e investidores a reconhecer seu papel social e transformar suas intenções em ações concretas, que gerem a integração de resultados nas três frentes ESG: ambiental, social e de governança.

As demandas são URGENTES
e não há mais tempo a perder

As demandas são COMPLEXAS 
e vão requerer cada vez mais coragem e ousadia na visão e na tomada de decisão

As demandas são INTEGRADAS
e exigem um olhar multistakeholder

As demandas DEMANDAM ENGAJAMENTO E COERÊNCIA
na gestão da materialidade, tanto financeira quanto do impacto socioambiental

*Formada em Relações Públicas, Renata Barbosa é especialista em branding e comunicação. Possui mais de 18 anos de experiência como executiva de empresas com propósito. Atualmente, é diretora de projetos da CAUSE.