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“O desmatamento zero não é o desmatamento ilegal, zero é zero!”, alerta Izabella Teixeira, ex-ministra do Meio Ambiente

Foto: Valter Campanato/ Agência Brasil

Em conversa com a CAUSE, Izabella Teixeira, bióloga e ex-ministra do Meio Ambiente, traça possíveis caminhos que o governos, organizações e empresas, sobretudo do setor agrícola, precisam, de fato, trilhar rumo a uma consciência coletiva e um futuro mais sustentável. “O desmatamento zero não é o desmatamento ilegal. Se o Brasil é uma potência agro-ambiental ou ambiciona ser, o desmatamento tem de ser zero. Zero é zero”, alerta.

O sobreaviso de Izabella é confirmado por um crescente um desmonte legalista, como o Projeto de Lei 191/2020, que é permissivo com atividades de garimpo, geração de energia e exploração agropecuária nas terras dos povos indígenas. A proposta é tratada como prioridade pelo atual presidente da República.

Essa é uma dentre tantas peculiaridades de má gestão ambiental, que avançam sem questionamentos efetivos sobre seus impactos catastróficos. “O conceito de desmatamento ilegal e legal não existe para países desenvolvidos, que são alguns dos mercados que compram nossos produtos. Os países em desenvolvimento estão trilhando um caminho de criarem restrições a isso, porque precisam da imagem internacional associada a não estar desmatando”, explica.

O debate global, contudo, parece não ressoar em território brasileiro, tanto que o desmatamento cresceu 14% em 2020, segundo dados divulgados pelo MapBiomas Alerta; o que deixa claro o baixo direcionamento de verbas e políticas públicas para combater a destruição ambiental.

“Um exemplo: você sabe que tem o carimbo legal e ilegal no Brasil, mas na Guiana Francesa, que é a maior fronteira seca da França no mundo, a mineração é proibida. Lá é um grande parque nacional, e todos os garimpeiros presos são brasileiros, todos, sem exceção. Então, isso dá a dimensão dessa permeabilidade do crime”, ratifica Izabella.

“A atual diretriz governamental permite essa pulverização, essa retomada que vai desde uma visão de ‘novas serras peladas’, que é aquele enxame de gente, até estruturas associadas às questões religiosas, como invasão de terra indígena, um novo processo de catequização e de evangelização dos ‘índios isolados”.

A responsabilidade das organizações

Dado o diagnóstico, estamos diante de uma evidente crise ambiental, e as empresas terão que repensar o próprio negócio sob essa perspectiva, “por conta da questão climática, das finanças sustentáveis, da demanda de consumidores e da demanda de acionistas. Mas isso não está posto hoje dessa maneira por uma razão muito simples: porque as pessoas hoje pensam isso como uma ameaça”, de acordo com a análise de Izabella.

Ou seja: para grande parte das organizações, sobretudo do setor agrícola, pensar um novo modelo econômico, sustentável, resiliente e circular passa pela sensação de risco, principalmente, financeiro, uma vez que o governo atual caminha na direção contrária a essas práticas. “O setor privado é cauteloso, e isso limita a sua necessária ousadia no necessário realinhamento contemporâneo do Brasil”, avalia.

“No entanto, há determinados momentos em que é necessário se posicionar para dar limites. Ao desmatar com base na lei, pela pressão internacional que está vindo, a empresa é punida. Porque o desmatamento zero não é o desmatamento ilegal, zero é zero. É parar. Isso está saindo da Amazônia e indo pro Cerrado”.

Tendo em vista que o atual governo é dissonante com a consciência ambiental global, existe uma barreira política nesse sentido. Portanto, Izabella dá algumas diretrizes: “As empresas terão que fazer por elas, costurando um acordo, que eu acho que é possível, com a ministra Tereza Cristina, que tem interesses em avançar com a agricultura do baixo carbono e ela tem uma compreensão de que essa visão não é uma visão que deva ser tratada como o governo trata, de um bloqueio apenas, relacionado a questões político-ideológicas”.

Segundo Izabella, o Brasil não só precisa parar de desmatar, abandonando de vez a postura legalista, como também deve adicionar valor estratégico à conservação da biodiversidade por conta das mudanças climáticas. E cabe às empresas do setor fazerem uma reorientação de rota a partir desse prisma, fortalecendo e transformando a imagem do Brasil no contexto mundial.