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Do direito à preguiça

Veículo: Aberje

Em 1880, o jornal francês L’Égalité publicou o panfleto comunista O direito à preguiça, de Paul Lafargue. Três anos depois, o libelo foi editado na forma de livro. Na ocasião, o autor encontrava-se na prisão de Saint-Pélagie, por atividades subversivas (criado em Paris, em 1790, foi nesse presídio que o Marques de Sade foi encarcerado).

Em seu opúsculo, Lafargue dispara contra o modelo de produção que, ao longo dos séculos XVIII e XIX na Europa, instituiu o capitalismo moderno e aprofundou o fosso entre a burguesia (os donos do capital) e o proletariado (os detentores da força de trabalho). Citando, entre outros manifestos do capitalismo dito “selvagem”, o anônimoAn essay on trade and commerce, de 1770, como segue: “A cura não estará completa enquanto os pobres de nossa indústria não se resignarem a trabalhar seis dias pela mesma quantia que ora ganham em quatro”.

Em sua obra, Lafarque questionará também, de forma contundente, o projeto do proletariado francês que, em junho de 1848, defenderá a jornada de doze horas de trabalho ao dia, extensiva a crianças com menos de doze anos. Segundo o autor, uma aberração “da nação que inaugurou o tempo moderno com a ‘Declaração dos Direitos do Homem”’ (aprovada em 26 de agosto de 1789, proclamando as liberdades e os direitos fundamentais do homem, e de toda a humanidade).

Tendo em vista o desenvolvimento da engenharia e o aperfeiçoamento do maquinário no século XIX, Lafarque irá defender o direito à preguiça: “É preciso que o proletariado pisoteie os preconceitos da moral cristã, econômica e livre pensadora; é preciso que volte a seus instintos naturais, que proclame os Direitos à Preguiça, mil vezes mais nobres e mais sagrados que os tísicos Direitos do Homem, arquitetados pelos advogados metafísicos da revolução burguesa. É preciso que ele se obrigue a não trabalhar mais que três horas por dia, não fazendo mais nada, só festejando, pelo resto do dia e da noite”.

Passados noventa e cinco anos da publicação do libelo comunista de Lafarque na imprensa francesa, o antropólogo Gilberto Freire irá publicar, em 1975, O brasileiro entre os outros hispanos: afinidades, contrastes e possíveis futuros nas suas inter-relações, enfeixando ensaios e conferências avulsas (muitos inéditos) na forma de artigos ligeiros, heurísticos e esclarecedores sobre o ethos da cultura brasileira.

Segundo o antropólogo “nós, brasileiros, temos vivido dentro de um sentido hispânico de vida, um tanto desdenhoso do cronométrico, anglo-saxônico, modernista. Isto permite nos aparentarmos, mais facilmente que povos com o sentido principalmente cronométrico de vida, de tendências e preferências cronometrizadas, com populações como as orientais e as africanas não de todo ocidentalizadas. Talvez se possa ver aí vantagem para o futuro de nossas relações com esses povos e de nossa possível missão de mediador entre eles e os povos rigidamente cronométricos”.

Reconhecendo em muitos aspectos o papel de vanguarda das sociedades que privilegiam o tempo cronométrico (sem juízo de valor, como legítimo representante do relativismo cultural de Franz Boas e Alfred Kroeber), Freire nota que essas culturas, baseadas na ética protestante, no laissez-faire e na indústria capitalista, “glorificam o trabalho contínuo, a produção metódica e veloz, a ponto de relacionar a dimensão de tempo ao valor do dinheiro”.

Ainda segundo Freire (também em uma perspectiva relativista), muito diferente será a configuração da cultura hispânica, pautada por uma noção de tempo circular em que passado, presente e futuro não apresentam fissuras ou rupturas, constituindo uma visão temporal denominada pelo autor por “tempo tríbio”, que permite usufruir e pensar a vida de forma plena, deixando para depois de amanhã o que se pode fazer amanhã – como no poema “Adiamento”, de Fernando Pessoa:

Depois de amanhã, sim só depois de amanhã…

Levarei amanhã a pensar em depois de amanhã,

E assim será possível; mas hoje não…

(…)

Hoje quero preparar-me,

Quero preparar-me para pensar amanhã no dia seguinte…

Ele é que é decisivo.

Tenho já o plano traçado; mas não, hoje não traço planos…

Amanhã é o dia dos planos.

Em O brasileiro entre os outros hispanos, Gilberto Freire irá concluir que o modo de vida hispânico pode combater “o vício da soberania do homem sobre o tempo”, como proclamado nas culturas do norte da Europa. Criando uma civilização “pós-moderna”, em harmonia com o futuro humano e com o tempo livre, até então simbolizado pela ‘hora-inglesa’, pela mística Calvinista e do ‘tempo é dinheiro’”.

O leitor (que, pacientemente acompanhou-me nessa digressão) conhece o contexto histórico e ideológico em que as obras de Paul Lafargue e Gilberto Freire foram escritas. Assim, é possível que tenha relevado a eloquência e os recursos retóricos dos autores.

Como mencionamos logo de início, o manifesto de Lafargue retrata a fase mais dura do capitalismo moderno na Europa. Nesse contexto, o Direito à preguiça discute a ética e a moral das relações de trabalho e a degradante situação da classe trabalhadora. A obra de Freire, por sua vez, mira aspectos sociais e culturais da formação do povo brasileiro. Na década de 1970, época da publicação do ensaio, o capitalismo no Brasil iniciava sua fase de maturidade, ainda sem distribuir renda e aplainar as desigualdades sociais (em uma metáfora perversa da época, o país deveria primeiro “fazer o bolo crescer para depois dividi-lo”).

Apesar disso, guardadas as dimensões de tempo e as diferenças ideológicas, os textos de Paul Lafargue e Gilberto Freire conduzem a uma mesma reflexão: quanto tempo devemos dedicar ao trabalho? Por outro lado, a questão que se coloca por antinomia é: quanto tempo devemos dedicar ao ócio?

Tanto Lafargue quanto Freire pensaram o mundo durante o império da mecânica. Com a revolução da tecnologia da informação, que começa a ganhar escala a partir da década de 1980, o tempo do trabalho humano que deveria diminuir (tendo em vista o exponencial incremento de produtividade) não só manteve inalterado o status-quo como, em alguns casos, aumentou (seja no “chão de fábrica”, como nos escritórios de grandes organizações transnacionais que empregam milhões de trabalhadores).

Estamos vivendo a pré-história de um novo ciclo do desenvolvimento humano. A “Era do trabalho” nas fábricas e nas atividades rurais, precisa ser repensada à luz das novas tecnologias. Nesse momento, temos apenas uma pálida ideia do que o futuro reserva à humanidade. E da maneira como ela usufruirá seu tempo na terra: o planeta em que habitamos – e que, por força de um projeto de progresso equivocado, estamos agredindo.

Parafraseando o poeta Mario de Andrade, ainda somos os primitivos de uma nova Era. Ai! Que preguiça!…