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Após ficar paraplégica em acidente, empreendedora cria consultoria de empregabilidade para PCDs

Texto: Esmeralda Angelica

Fotos: Divulgação

No Brasil, cerca de 45 milhões de pessoas possuem algum tipo de deficiência. Quando o assunto é empregabilidade deste grupo, a situação é bem preocupante — apenas 411 mil profissionais estão ocupados, ou seja, menos de 1% do total de trabalhos formais são exercidos por PCDs (pessoas com deficiência).

Esta é a realidade que Carolina Ignarra, fundadora da Talento Incluir busca mudar. Já são mais de 7 mil pessoas atendidas pela iniciativa desde seu surgimento em 2008, e as empresas podem contar com uma consultoria completa que, além de fazer a inclusão, ensina os gestores e líderes a darem continuidade a esse tipo de ação.

Antes que o projeto surgisse, de fato, Carolina se formou em educação física e trabalhava como instrutora de ginástica laboral no meio corporativo. No entanto, em 2001, um acidente de moto mudaria o curso de sua carreira — a medula óssea foi atingida, e ela passou a usar cadeira de rodas. “Inicialmente eu tive aquele sentimento de invalidez, quando eu imaginava o quanto o meu corpo era um instrumento importante daquilo que eu fazia profissionalmente, eu achava muito distante a possibilidade de trabalho”, conta.

Mas não durou muito tempo. Três meses após o ocorrido, ela foi chamada na empresa que trabalhava, e o mais interessante, segundo Carolina, é que, na época, suas gestoras a convidaram para voltar para o mesmo cargo que ela ocupava antes do acidente. “Eu não voltei para atender telefone, para fazer uma função que esquecesse tudo aquilo que eu já tinha vivido. Elas consideraram minha experiência, meu perfil”.

Combustível para mudar vidas

Sua própria história de vida impulsionou a criação da Talento Incluir. Em 2004, Carolina percebeu que outras empresas a abordavam para contratá-la. “Me chamavam para ser secretária, recepcionista, telefonista. Oportunidades muito legais, e o salário era maior do que o que eu recebia, mas não tinham a ver comigo”, explica. Foi então que ela constatou que os convites apareciam porque existe uma lei para a contratação de PCDs — chamada de Lei de Cotas (art. 93 da Lei nº 8.213/91), estabelece que empresas com cem ou mais empregados preencham uma parcela de seus cargos com pessoas com deficiência.

“As empresas me faziam propostas porque elas me comparavam com a maior parte das pessoas com deficiência que tinham ainda menos oportunidades, menos independência, menos autoestima, e essas oportunidades vinham porque é lei e não porque elas enxergavam em mim algo parecido com aquele negócio, com aquela oportunidade de trabalho”.

Carolina Ignarra

Depois de pesquisar e entender melhor o universo que envolve a empregabilidade e o acesso de pessoas com deficiência, Carolina começou a distribuir vagas que ela teve acesso para outras pessoas com deficiência. A partir disso, ela começou a ministrar palestras e se conectou também às dores do mercado de trabalho relacionadas a essa questão.

“O que eu queria era contar a minha história e que as empresas pensassem de forma diferente. Fui dando soluções mais customizadas para resolver as demandas, e então surgiu o treinamento direcionado pro RH (Recursos Humanos). Iniciei esse trabalho de consciência e cultura”. Contudo, fazer a ponte entre candidatos e empresas só foi possível quando a engenheira de produção Juliana Ramalho entrou como sócia no projeto.

Da esquerda para a direita, Carolina Ignarra e Juliana Ramalho

Etapas para o processo de inclusão acontecer

Criada em 2008, a Talento Incluir possui 4 pilares da inclusão. O primeiro é a conscientização, que funciona da seguinte forma: são palestras, workshops e treinamentos de letramento para diversidade e inclusão, com foco na pessoa com deficiência. O público de alcance é diverso, sendo de lideranças e RH. O segundo pilar é de contratação: “Fazemos esse trabalho de busca do profissional e preparação dos envolvidos diretos. Então, temos um trabalho de ambientação e inclusão do contratado na área com uma reunião de boas-vindas”, explica Carolina.

O terceiro pilar é o de acessibilidade, etapa que cuida dos espaços físicos e também dos virtuais. “Também temos acessibilidade comunicacional, que é trazer intérprete de libras, e não é só pra surdo — algumas deficiências são de dificuldade de associação, de leitura, de entendimento de analogias; dessa forma, precisamos trazer comunicações que todos entendam”. O quarto e último pilar é de carreira, no qual a pessoa com deficiência é acompanhada pela Talento Incluir com uma pesquisa espelho, que consiste em fazer uma lista de perguntas para o gestor e funcionário todos os meses, e assim garantir a evolução profissional. O serviço de recrutamento acontece através de 3 parceiros: 99Jobs, ONG Ser Especial e Big Land.

Principais desafios

Com a chegada de Juliana investindo na empresa, outros novos desafios começaram a surgir. O primeiro deles ocorreu justamente com o nascimento da Talento Incluir. “Estávamos iniciando um negócio que não existia. Não tínhamos referências dentro nem fora do Brasil. Montar uma consultoria que não tivesse cara de agência de seleção foi complicado”, lembra Carolina. “O cliente nos procura querendo contratar por conta da lei”, reitera.

Carolina explica que ela e Juliana estavam montando soluções para uma necessidade que o mercado de trabalho sequer sabia que tinha. “O mercado queria contratar para cumprir cotas, e nós tínhamos que dizer que contratar era só um dos passos da inclusão, que nós tínhamos mais pra oferecer pra que aquilo fosse acontecendo de forma mais consistente e sustentável”.

A lei de cotas para pessoas com deficiência foi um dos impulsionadores, mas Carolina revela que, em determinado momento, começou a também ser uma questão: “A lei de cotas obriga as empresas, e todo mundo que chega contratado por uma obrigação carrega o peso disso. Por isso, sempre foi muito desafiador a gente melhorar a imagem da pessoa com deficiência, e esse é um desafio que persiste”.

Incluir e acompanhar

Além de todo o serviço prestado, a empresa acompanha os contratados e também ensina os processos para as empresas. “Nem sempre foi dessa forma, mas percebemos que algumas vagas de entrada precisavam de um acompanhamento. Todo mês, a assistente social liga para o profissional, liga pro gestor, quer entender a empregabilidade dele”, esclarece.

Nesse sentido, uma das inteligências da consultoria é treinar os profissionais de RH e diversidade para acompanharem o desenvolvimento dos contratados. “Enquanto tratarmos essas pessoas de forma separada, estamos segregando, e não incluindo. Entendemos que toda essa inteligência de diversidade precisa estar dentro das organizações. Quanto mais gente sabendo fazer, mais gente com deficiência será impactada com essa solução”, finaliza.

Saiba mais sobre a iniciativa em: https://talentoincluir.com.br/