Tapa na Saúde

Nos últimos dias, o Senado aprovou uma sugestão popular que libera uso medicinal da maconha. O assunto vem se transformando em debate nacional recorrente. As discussões  que tradicionalmente envolviam opiniões embasadas em visões ideológicas, agora possuem dados científicos e econômicos, que mostram seu potencial terapêutico e mercadológico. 

Em meio ao fumacê que torna o assunto nebuloso, escolhemos o Uso Medicinal da Cannabis como a #CausaDaSemana.

Embora não seja uma medida que revolucione a legislação do comércio da erva e seus derivados no Brasil, a sugestão legislativa, acatada pela Comissão de Direitos Humanos e Legislação Participativa, composta por senadores, foi um passo importante para uma possível legalização da cannabis medicinal e do cânhamo industrial. A próxima etapa será a tramitação da proposta como projeto de lei no Senado.

A história brasileira revela que temas controversos e polêmicos, principalmente os que envolvem costumes da população e suas liberdades de escolha, demoram para ter seu entendimento revisado pela sociedade. Prova disso é a nossa relação com a escravidão – abolida em 1888, mas que ainda permeia em forma de resquícios que contaminam as nossas relações cotidianas. 

Em relação à cannabis, a história vem ocorrendo com lentidão semelhante, e os sinais para isso quem dá são as autoridades: Osmar Terra, ministro da Cidadania, insiste na ideia de uma epidemia de drogas inexistente, enquanto seu par da pasta da Saúde se posicionou contra o plantio mesmo para as necessidades especiais, afirmando que isso abriria a porta para um consumo generalizado.

Uma rápida espiada além das nossas fronteiras nos revela como estamos na rabeira da história. Mais de 30 países já têm regulamentações sobre o uso da maconha para diversos fins, inclusive recreativos. Nos Estados Unidos, o remédio da cannabis é legal em cerca de 30 estados e uma dezena deles já “liberou geral” – mesmo assim, o governo brasileiro, que vive reverenciando os americanos, ignora este fato.

Epilepsia, ansiedade, depressão, esclerose múltipla, demência, dor crônica e náuseas por quimioterapia de pacientes com câncer são algumas das doenças e sintomas que têm a cannabis como antídoto recomendado por médicos e com eficácia garantida por estudos científicos

Enquanto as discussões sobre o tema seguem acaloradas no Congresso e em outros setores da sociedade brasileira, triplicou o número de novos pacientes que buscam importação de canabidiol no nosso país. 

Nos últimos anos, mais de 7 mil doentes foram autorizados pela Anvisa a importar produtos com canabidiol (CBD) e tetrahidrocanabinol (THC). A regulamentação desse processo por aqui se deu em 2015, mas a burocracia ainda torna o acesso ao produto lento, e os pacientes precisam pagar aproximadamente R$ 1.200 pelos itens estrangeiros.

Como alternativa a isso, o diretor-presidente da Anvisa, William Dib, propõe o aval ao plantio de cannabis medicinal, o que tem lhe colocado na posição de alvo do governo. Para ele, a necessidade desse tipo regulamentação é urgente, para que os pacientes e suas famílias tenham não apenas segurança jurídica mas acesso a produtos de qualidade.

É verdade que o assunto deve ser debatido e analisado com cautela. Mas diferente do que ocorria no passado, quando a falta de informação fazia com que a maconha fosse vista como uma planta diabólica, hoje temos acesso a estudos e conhecimentos que mostram que suas aplicações são oportunas, principalmente no campo da saúde pública. É hora de clarear as ideias, desapegar das crenças ideológicas e valorizar a ciência, para que pacientes não sejam privados das terapias alternativas no tratamento de suas doenças. 

Cause

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