Por que, mais do que nunca, devemos continuar a folhear?

O mercado editorial vive um momento de crise – Saraiva e Livraria Cultura tiveram pedido de recuperação acolhido pela Justiça. (Crédito: iStock)

por Rodolfo Witzig Guttilla*

Anteontem (27), a Justiça de São Paulo aceitou o pedido de recuperação judicial da maior rede de livrarias do país, a Saraiva, afundada em dívidas que superam os 600 milhões de reais.

O episódio acontece um mês depois que outra importante rede de livrarias, a Cultura, também teve seu pedido de recuperação acolhido pela Justiça.

No momento em que duas das maiores casas distribuidoras correm risco de insolvência, como muitos amantes dos livros, fico preocupado diante do cenário claro de ameaça a um dos suportes que sustentou a educação e a disseminação da cultura ao longo da História.

É por isso que elegemos a VIDA LONGA AOS LIVROS como a Causa da Semana.

Movimentos como esses mexem com toda a cadeia de edição, produção e distribuição de livros. Em carta aberta destinada a leitores, Luiz Schwarcz, CEO da editora Companhia das Letras, dá a dimensão do significado do momento.

“Aos que, como eu, têm no afeto aos livros sua razão de viver, peço que espalhem mensagens; que espalhem o desejo de comprar livros neste final de ano, livros dos seus autores preferidos, de novos escritores que queiram descobrir, livros comprados em livrarias que sobrevivem heroicamente à crise, cumprindo com seus compromissos, e também nas livrarias que estão em dificuldades, mas que precisam de nossa ajuda para se reerguer”, escreve Schwarcz.

Velocidade e obsolescência são as manifestações mais evidentes do século XXI. No campo da comunicação, os novíssimos apetrechos irão acelerar vertiginosamente a produção da informação e do conhecimento.

Por outro lado, essas mesmas “extensões do homem” (na expressão de Marshall McLuhan) serão muito rapidamente substituídas por outras, ainda mais velozes e sofisticadas.

Ainda assim, em relação aos livros, sou acima de tudo um otimista.

“Uma mídia não toma o lugar da outra, ao menos no curto prazo”, observa o historiador Robert Darnton. E segue: “A publicação de manuscritos floresceu por muito tempo depois da invenção da tipografia por Gutemberg; os jornais não acabaram com o livro impresso; a televisão não destruiu o rádio; a Internet não fez os telespectadores abandonarem suas tevês”.

Acredito fortemente na tese de Darnton.

Como muitos descendentes de italianos, ganhei de meus pais um exemplar de Cuore (ou Coração), do autor italiano Edmundo de Amicis (1846/1908). Marcado por forte timbre moralista, o livro tem como pano de fundo o “Risorgimento” (processo de unificação da Itália, ocorrido entre os anos de 1815 e 1871).

Na condição de espanador de pó, leitor interessado e organizador da biblioteca familiar, herdei outros dois volumes do Cuore, o mais antigo publicado em 1904, em São Paulo, pela Livraria Francisco Alves (passados apenas oito anos de seu lançamento no país de origem).

Meu outro Cuore foi publicado em 1905, em italiano, foi editado pela casa Fratelli Teves Editori, de Milano (editora que lançou a primeira edição da obra).

Ambos têm marcações e registros que me fizeram viajar na história de minha família. Uma assinatura de meu avô com uma data rabiscada, uma sentença sublinhada, resquícios do manuseio e do tempo – todos são sinais que dão vida àquelas páginas.

Como antevisto por McLuhan em seu Understanding Media, em um futuro próximo, a imensa maioria da população mundial portará sua “extensão” comunicacional (na forma de telefones móveis, tablets ou chips multifuncionais implantados no corpo – ou todos eles ao mesmo tempo, bem como as demais traquitanas que vierem a ser inventadas). Tudo isso dará acesso ilimitado a todo tipo de informação e conhecimento produzido pelo homem.

Inclusive ao Cuore, de Edmundo de Amicis, que, diferentemente de meus três exemplares impressos, não conterá a mesma dimensão dramática.

Num dia qualquer desse porvir, em um remoto canto do orbe terraqueo, um garoto estará lendo às escondidas, tarde da noite, lanterna em punho, a respiração suspensa e o coração galopando, as aventuras de Emílio de Roccabruna, senhor de Ventimiglia, mais conhecido nos mares do grande Golfo do México como o Corsário Negro – personagem inesquecível de Emilio Salgari, um craque no gênero do romance de aventura.

Seus pais estarão dormindo o sono dos inocentes. O livro sobreviverá.

***

Rodolfo Witzig Guttilla é um dos sócios-fundadores da CAUSE. É antropólogo, jornalista e poeta. Ensaísta em A casa do santo & o santo de casa, publicou Uns & Outros Poemas – 1985-2005 (ambos pela Landy Editora) e organizou a coletânea Boa Companhia Haicai (Editora Companhia das Letras).

Cause

Somos um time multidisciplinar de profissionais das áreas de Administração, Antropologia, Ciência Política, Design, Gestão Pública, Jornalismo, Relações Públicas e Publicidade. Propomos um olhar integrado a partir dessas competências para promover as causas em que acreditamos.