O ouro que não tem valor

 
A exploração mineral em terras indígenas voltou a ser pauta da mídia nos últimos dias,  deixando em alerta não só os povos originários da floresta, mas toda a sociedade brasileira

Diante do acirramento da violência no campo e de comportamentos que buscam a maximização do lucro a qualquer custo, elegemos os Direitos Indígenas como a #CausaDaSemana.

A liberação de terras para exploração de recursos é discutida há anos no Congresso, mas desta vez a ideia tomou contornos palpáveis. O governo federal finalizou a minuta de um Projeto de Lei (PL) que prevê a regulamentação da mineração em áreas antes destinadas somente para índios. O PL é uma das principais promessas de campanha do presidente Jair Bolsonaro. 

E as tensões já não são causadas apenas por ameaças de garimpeiros invasores. Há menos de duas semanas, o líder de uma tribo no Amapá morreu durante a invasão de seu território. 

A Terra Indígena Wajãpi, onde o caso ocorreu, desperta interesses por seus recursos minerais desde 1960. Inclusive, já sofreu a tentativa de extinção de seu título de reserva em 2017.  

Na semana passada, um grupo de índios no Pará já havia passado por uma situação parecida, quando tentaram impedir a entrada de madeireiros nas terras onde vivem.A volta do assunto às manchetes motivou a realização de uma pesquisa do DataFolha que mostrou que 86% dos entrevistados declararam ser contrários à exploração mineral nas terras indígenas.

Atualmente, segundo o Instituto Socioambiental (ISA), há 4,3 mil requerimentos para exploração de 214 das 735 áreas reservadas para os povos originários da floresta. registradas na Agência Nacional de Mineração.

O medo, tanto de indígenas quanto de ambientalistas, é que uma liberação da área para exploração mineral aconteça de forma desenfreada, colocando comunidades em risco. Ao olhar para trás, o histórico não é positivo. A exploração de minérios já resultou na contaminação de rios, desmatamento, disseminação de doenças e do uso de drogas  nesses locais.

Paralelamente à ocorrência de fatos violentos, a Funai, órgão responsável por realizar as demarcações das terras indígenas, passa por apuros. Um relatório recente do grupo de trabalho da instituição aponta sucateamento de nove dos seus aviões que deveriam ser usados para atendimento aos índios.

O descaso é perpetuado ao longo de séculos. Uma das tentativas de romper esse ciclo aconteceu no passado, com a eleição da primeira deputada federal indígena no país, Joênia Wapichana. No entanto, a realidade mostra que a luta por direitos destes povos ainda deve será longa e tortuosa.

Os povos indígenas ocupam hoje, cerca de 13% do território nacional, e as atitudes de garimpeiros vistas nos últimos dias parecem querer tornar esse número ainda menor. Atitudes que, infelizmente, passam por cima da história e de culturas que ouro algum poderia comprar.

Cause

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