Rodolfo Guttilla dá depoimento sobre 50 anos da Aberje

Em especial do Jornalistas&Cia sobre os 50 anos da Aberje, Rodolfo Guttilla, sócio da CAUSE, deu um depoimento sobre o período em que presidiu o Conselho Deliberativo da organização — confira na íntegra a matéria Da gramatura à “dramatura”:

 

Rodolfo Guttilla foi presidente da Diretoria da Aberje de 2002 a 2004 e, com a mudança dos Estatutos, presidiu o Conselho Deliberativo da entidade até 2012. Dirige desde 2013 a Cause, agência especializada em advocacy. Em vez de responder às perguntas de J&Cia/JCC, ele preferiu dar um depoimento por escrito, em que aborda questões históricas, sobre sua gestão e a atividade de comunicação empresarial.

O ano de 1967 marcou o surgimento da Aberje, então Associação Brasileira de Editores de Revistas e Jornais de Empresa. Em 1989, a entidade manteve a sigla já consagrada e passou se chamar Associação Brasileira de Comunicação Empresarial, tendo no final dos anos 1990, registrado e assumido também o nome de Associação Brasileira de Comunicação Organizacional. A entidade teve papel determinante para a formação de centenas de intelectuais e profissionais de comunicação e, por extensão, no alargamento e aprimoramento dos campos teórico e epistemológico da disciplina. Ajudou a criar, também, um mercado vigoroso no Brasil.

Naquele ano, o general Castelo Branco entregou a Presidência da República ao marechal Costa e Silva, depois de praticar quase quatro mil punições políticas, desde cassações de mandatos eletivos a destituições, exonerações e expulsões. Foi também o ano da promulgação da Lei de Segurança Nacional – cujo efeito, em nossa atividade, resultou no corporativismo e cerceamento dos quais até hoje nos ressentimos. Por outro lado, foi nessa mesma data que surgiu o Tropicalismo, antimovimento que, inspirado por Oswald de Andrade, rompeu com o bom-mocismo e com a pasmaceira reinantes no ambiente cultural, graças aos Parangolés de Hélio Oiticica, à música de
Caetano Veloso e ao Teatro Oficina – que, liderado por José Celso Martinez, encenou O rei da vela, de Oswald, crítica acerba aos mandatários do poder total, de todas as tonalidades: vermelhos, rosas, amarelos, verdes…

Ao reconhecer a influência e o papel estratégico que a comunicação exerce na sociedade global, em 2007 o grupo executivo e os Conselhos da Aberje promoveram uma reflexão sobre os dilemas e os desafios da comunicação e do comunicador no tempo presente. Essa meditação, resultou no documento A comunicação organizacional frente
ao seu tempo.
O texto publicado há dez anos é eloquente:

“Há 40 anos, em alguns cursos da Aberje se tratava da gramatura do papel. Hoje, o que está em jogo é o nosso papel na ‘dramatura’ do mundo. A formação do bom profissional que conhece seus métodos, suas técnicas, foi um grande êxito nosso. Nunca houve profissionais de tanta qualidade, nem tanto avanço técnico. Mas o tempo presente nos
trouxe questões éticas que não podemos ignorar e que nos interpelam como seres humanos. No drama de nossos dias, que papel nós, comunicadores, vamos assumir, uma vez que somos profissionais capacitados ao mesmo tempo em que simples seres humanos, diante dos grandes desafios sociais, econômicos e ambientais, que são a miséria e o
aquecimento global?”

O jogo das palavras gramatura e “dramatura” evidencia a posição estratégica que a comunicação e o comunicador ocupam no tempo presente. Acredito que já seja consenso que a nossa atividade despontou com o movimento de abertura política, nos anos de 1980, por meio do surgimento de novos interlocutores, como sindicatos, ONGs e outros protagonistas sociais e políticos.  Nas décadas seguintes, seria revigorada pelo surgimento de novas empresas e organizações, e, em função deste fato, pela promoção da concorrência e dos direitos do consumidor (em um mercado até então fechado e artificialmente protegido). Nesse sentido, a atividade do comunicador não depende, faz muito tempo, de reserva de mercado, proteção ou unção: em uma sociedade cada vez mais global e complexa – sua necessidade e atualidade são evidentes. Assim, organizações e profissionais devem romper estereótipos, barreiras
e preconceitos, unindo aos campos teórico e epistemológico a prática e o exercício de nossa atividade, múltipla e diversa.
A complexidade do mundo contemporâneo impõe também um ambiente de cooperação e colaboração entre pessoas e instituições. Para tanto, torna-se imperativo promover e facilitar a interação e o diálogo entre as diversas redes
sociais e de negócios. Nesse contexto, podemos afirmar que não há desenvolvimento sustentável sem comunicação. E não haverá futuro para as próximas gerações se não houver uma mudança nos modelos de produção e consumo de bens e serviços por parte da sociedade. O desafio dos comunicadores está em promover esta nova e urgente consciência. Além disso, o comunicador deve saber olhar o mundo com afeto, independência, honestidade e firmeza para defender seus pontos de vista, fortalecer a democracia e zelar pela liberdade.

Entre 2002 e 2012, tive o privilégio de presidir o Conselho Deliberativo da Aberje. Com o apoio dos conselheiros e da Diretoria Executiva, implementamos diversas medidas com o objetivo de aperfeiçoar a tomada de decisões  estratégicas, o sistema de gestão e os processos de nossa entidade. Nesse período, definimos uma nova estrutura de governança, com a criação de conselhos independentes e a reestruturação da Diretoria Executiva, revendo rituais, papéis e responsabilidades; criamos uma rotina de planejamento trienal com base em metodologias consagradas, como o Balance Scored Card (BSC); revisamos todos os processos internos, obtendo a certificação ISO 9.002, que reconhece as melhores práticas de governança e gestão. Por fim, contratamos empresas independentes para
auditar as informações financeiras da Aberje, de forma a reforçar o seu compromisso com a transparência e com as boas práticas de gestão.
Com a mesma disciplina e entusiasmo, abrimos diversas frentes para fortalecer a imagem institucional e a presença local e internacional da Aberje, criando novas organizações e parcerias estratégicas com associações de comunicação do Cone Sul, Estados Unidos da América e Europa, com a finalidade de expandir a influência da nossa entidade nessas regiões e, ao mesmo tempo, oferecer um amplo panorama sobre diferentes práticas de comunicação organizacional para os associados. Outras parcerias também foram firmadas com instituições de ensino no Brasil e no exterior, caso da Universidade de Syracuse, dos Estados Unidos da América.
Nesse mesmo período, a Aberje consolidou sua vocação para o ensino continuado, oferecendo dezenas de palestras, seminários e cursos de longa duração (caso do MBA em comunicação organizacional), tornando-se um centro de referência local e internacional no campo da comunicação organizacional.
Ao longo desses anos, a Aberje expandiu seu raio de atuação enormemente, contribuindo de forma decisiva para a consolidação de um mercado ainda muito promissor. Sinto-me gratificado por ter feito parte dessa história.