A história desta senhora prova que igualdade racial é uma causa permanente

Dona Diva conta a sua história durante a Flip 2017 (Crédito: Flip)

A 15ª edição da Festa Literária de Paraty (Flip), que acabou no domingo (30), foi marcada pela diversidade. Entre os escritores convidados, 30% eram negros – assim como o autor homenageado do ano, Lima Barreto, a mente por trás de O Triste Fim de Policarpo Quaresma.

Esse é o primeiro motivo pelo qual elegemos a igualdade racial como a Causa da Semana.

A segunda razão – e talvez a mais surpreendente – veio da plateia da Flip. Na sexta (28), após um debate mediado por Lázaro Ramos, a professora aposentada Diva Guimarães pegou o microfone e fez um discurso emocionado sobre sua história pessoal e racismo.  

Relembrando sua infância, Dona Diva contou como o preconceito se perpetuava na escola, onde as professoras contavam histórias que reforçavam o racismo. “Quando eu era criança, as freiras me contaram uma história de como Deus abençoou um rio e mandou todos os homens tomarem banho nele. Os mais trabalhadores e inteligentes chegaram primeiro, mergulharam no rio e saíram brancos. Já os mais preguiçosos chegaram tarde e só havia um restinho de água. Por isso continuaram negros, só com a palma das mãos e a planta dos pés brancos”, relatou Dona Diva. “Os negros não são preguiçosos, este país vive hoje porque meus antepassados trabalharam muito.”

Na mesa mais lotada no evento, o historiador João José Reis foi bastante aplaudido ao defender o sistema de cotas raciais em universidades e criticar o que ele chamou de “escravidão contemporânea”. Em discussão com Ana Miranda e Lilia Schwarcz como moderadora, Reis relacionou as últimas reformas políticas a uma forma de manter a desigualdade no país.

No domingo (30), Ana Maria Gonçalves, autora de “Um defeito de cor” (Record), e Conceição Evaristo, ganhadora do Prêmio Jabuti e descrita como “uma das principais vozes da memória negra brasileira” abriram o dia com discussões sobre o significado de ser mulher e negra no país.

“Por que todo mundo lê Clarice Lispector e entende que ela está falando das angústias e não percebe isso de Carolina Maria de Jesus? Isso é esvaziar a humanidade e as angústias das negras. Diziam que ela feria as normas da língua, mas eu diria que são formas ocultas da língua”, colocou Conceição.

Em coletiva no último dia, Joselia Aguiar, curadora do evento, afirmou esperar que “essa mobilização dos leitores negros e imprensa negros aconteça em todas as festas literárias, e não apenas na Flip”.

A forte temática social presente na festa levantou críticas na Internet. O evento teria deixado de lado a literatura para ser apenas um instrumento político? Levar em consideração as diferentes opiniões é sempre válido, mas, neste caso, a Flip é prova de que a arte é também um instrumento político.

Num país que se diz orgulhar de suas origens, todos sabemos que as manifestações de preconceito são diárias. É por isso que, embora a igualdade racial tenha ganhado atenção especial na última semana, sua importância não deve ser lembrada só agora. Essa é uma causa que devemos defender de forma permanente e irrestrita.  

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