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Bala Perdida

No último final de semana, Ágatha Félix, uma menina de 8 anos, foi atingida nas costas por um tiro de fuzil enquanto voltava para casa com a mãe no Complexo do Alemão. O crime tira de debaixo do tapete a sangria desenfreada que acontece no país, mas muitos fingem não ver.

Em um Estado que se orgulha em proteger os “cidadãos de bem”, as testemunhas da morte de Ágatha afirmam que o tiro partiu de policiais – a mesma polícia que não foi capaz de identificar a autoria do crime em nenhum dos casos de crianças mortas por balas perdidas este ano.

Infelizmente, ao que tudo indica, histórias como essas estão longe de parar por aqui. Informações oficiais apontam que 2019 deve ultrapassar o recorde de mortes por agentes de segurança. Apenas entre janeiro e julho deste ano, foram 1.075 mortos, uma média de 35 por semana, segundo levantamento da Revista Piauí.

Tudo isso acontece enquanto o programa que incentiva polícias do Rio a reduzirem o número de mortes em ações é suspenso pelo governador da Guanabara. Nada surpreendente até aqui, já que a corporação, como diz Eliane Brum, “reflete quem governa, e governa para uma parcela da sociedade que determina quem pode viver”.

Coincidência ou não, o “projeto anticrime” de Moro também voltou a tramitar nesta semana. A proposta pretende dar ainda mais poderes às forças policiais. Mas se a orientação é ser “linha-dura”, pelo menos o último embate não foi tão bem-sucedido, com a retirada do excludentes de ilicitude do documento, que possibilitava a redução de pena a policiais que causem mortes durante sua atividade.

Vivemos tempos intensos e obscuros, no qual, desde a infância, as pessoas não são apenas silenciadas, mas destituídas do direito de ser e de ter voz. 

Assistimos, a cada dia a negação do Estado de fornecer os direitos mais básicos às Ágathas, Evaldos e Marielles, sem perceber que é pelo silêncio, conformidade e apatia que as estatísticas que revelam o que há de mais cruel na sociedade continuam a crescer.

Não é mais possível sentar diante do sofá e nos calarmos diante dessa situação. É preciso acordar do torpor. Não é pedir demais que todos tenham seus direitos assegurados, que possam andar com tranquilidade pelas ruas, que tenham paz e voz ativa na vida em sociedade. Não é pedir demais que sejam resolvidos problemas que nunca deveriam ter começado a existir. Ágatha, presente!

Cause

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