80 tiros e nenhuma explicação


A cartilha da ciência política nos ensina que o Estado é a única instituição que tem o direito de fazer o uso legítimo da força. É assim que os países se protegem de ameaças e controlam surtos de violência.

A última semana provou que, no Brasil, o que deveria ser exceção se tornou regra.

É por isso que defendemos o FIM DA VIOLÊNCIA DO ESTADO como a #CausaDaSemana.

Na tarde de domingo (7), militares do Exército dispararam 80 tiros contra um carro, que levava uma família, no bairro de Guadalupe. O músico Evaldo morreu na hora e mais duas pessoas ficaram feridas.

Dois dias antes, na madrugada de sexta-feira (5), o exército já havia executado um jovem com um tiro pelas costas, durante uma blitz do Exército, na mesma parte da cidade.

As reações são de vergonhoso descaso. Quase uma semana depois do crime, em seu primeiro posicionamento sobre o caso, o presidente Jair Bolsonaro disse que “o Exército não matou ninguém” e definiu como um “incidente” a morte de Evaldo.

Já o governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel, depois de dizer que não cabia a ele fazer juízo de valor do episódio, chamou o caso de “erro grosseiro”.

Para o delegado que assumiu a investigação do caso, tudo indica que o carro que levava a família teria sido confundido pelos militares e fuzilado por “engano”.

O jornal El País mostrou em uma reportagem como o clima de tensão sob o qual vivem moradores das favelas cariocas têm se intensificado desde sua eleição no ano passado.

Em dois anos, a quantidade de mortos pelas polícias no Rio de Janeiro aumentou 67% – e a região metropolitana registrou um aumento de quase 17% no número de tiroteios.

Apesar de a juíza manter a prisão de 9 de 10 militares do Exército envolvidos na ação que matou o Evaldo, os especialistas veem com desconfiança o julgamento pela Justiça Militar, reacendendo uma campanha antiga para que os membros da corporação  respondam por seus crimes na Justiça comum.

A Agência Pública contou recententemente a história do jovem Matheus Martins, assassinado em 2017 pelo exército. A Justiça Militar considerou o caso “um erro escusável“.

Mas o problema, é bom lembrar, é maior do que isso – e esbarra na premissa básica de que os militares simplesmente não são treinados para lidar com a violência do dia a dia.

A diretora-executiva do Fórum Brasileiro de Segurança, Samira Bueno, participou do podcast Café da Manhã, da Folha, para tentar entender a ação do Exército.

Para a especialista, existiu uma total desproporção do uso da força. “Sob qualquer métrica os 80 tiros são uma reação completamente desproporcional. Está muito claro que o objetivo deles era cometer um homicídio e essa operação só sacramenta o que a gente já vem observando no Rio: a explosão dos casos de violência envolvendo agentes estatais.”

Mas também é bom lembrar: desviar a atenção para os acusados pode fazer com que se esqueça que em nenhuma hipótese esses disparos poderiam ter acontecido.

A tarde de domingo no Rio deixou claro, mais uma vez, que nossa política de segurança pública tem falhado na missão de proteger – mas é bem-sucedida na função de amedrontar, com violência indiscriminada, a população brasileira. Foram  80 tiros injustificáveis, indesculpáveis e pertubadores.

Cause

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